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Meninas superam distância e concorrência para treinar futebol em SP – 10/11/2019 – Esporte – Folha de S.Paulo

“Auê!”, grita uma das meninas. 

As outras se protegem. Quem não é rápida o bastante leva um tapa. Auê é a palavra-chave porque alguma das jogadores do time de futebol feminino sub-13 do Centro Olímpico arrotou. Brincadeira de crianças.

Icyla, Mariana, Carolina e Lorenza se divertem com isso, mesmo que seja um dia cansativo para elas. Três ou quatro vezes por semana, saem de manhã de casa e mal têm tempo para almoçar após a escola antes de irem ao treino. Poderia ser mais fácil se não jogassem futebol. 

Essa possibilidade jamais passou pela cabeça de nenhuma delas.

“Meus pais estão trabalhando e ficam com medo. Ligam toda hora para saber como estou. Mas eu quero jogar”, afirma Mariana dos Santos Feitosa Ferreira, 13.

O receio da família é porque ela faz sozinha e de transporte público o trajeto do Grajaú, na zona sul da capital, até o Centro Olímpico, na Vila Clementino, também na zona sul. Às vezes volta para casa na companhia de Icyla Queiroz, 12, que sai do Terminal Varginha, no Jardim Maria Fernandes, ao lado do Grajaú, para ir treinar. Chegam quase à noite.

Quem tem a paciência de levar Icyla, esperar pelo fim da atividade e retornar para casa com a garota é Ana, amiga da família que ela chama de “avó postiça”.

“Eu comecei a jogar porque queria sentir a emoção de entrar em um estádio, de jogar para a torcida. Ainda tenho isso e penso cada vez que entro no gramado”, afirma Icyla, que, ao contrário das demais, não pensa em jogar do meio para o ataque. “Sou volante ou zagueira. Nunca gostei de ser centroavante”, completa.

Ana aguarda pela neta de criação em uma sala recém-inaugurada pelo Centro Olímpico para familiares das atletas. A preferência dos treinadores é que ninguém fique à beira do campo para que não dê palpites ou atrapalhe.

As quatro meninas fazem parte de um grupo de 90 que treina no clube referência em categorias de base do futebol feminino em São Paulo. Faltar não é opção porque a vaga não é garantida. Depende do desempenho e da assiduidade. Todos os meses são realizadas peneiras para descobrir novos talentos e o número de jogadoras interessadas supera em muito as vagas.

“Depois da Copa do Mundo [realizada em junho, na França], sinto que as pessoas se interessaram mais pelo futebol feminino. Meus pais veem que é isso que eu quero. No começo eles se preocupavam porque eu venho e vou embora sozinha. Mas se acostumaram”, diz Carolina Zacharias da Silva, 13, que pega trem e ônibus para ir de Osasco, na Grande São Paulo, ao Centro Olímpico.

Ao contrário das outras, Carol tem experiência em outros times. Atuou pelo Taboão da Serra antes de ser aprovada no Centro Olímpico. 

O pai, que involuntariamente despertou nela o amor pelo futebol ao levá-la todos os domingos para seus jogos na várzea, não consegue acompanhá-la. Nem a mãe. Ambos têm de trabalhar, o que parece ser uma história comum, ouvida várias vezes pelos treinadores.

“Aqui há muitas meninas que vêm de longe. O que nós conseguimos oferecer a elas é uma carga de vale transporte para que consigam pegar metrô, trem e ônibus. Temos jogadoras que comem marmitas antes do treino ou de virem para cá. No final de tudo, depende muito de a família apoiar esse sonho”, afirma Rodrigo Coelho, supervisor do futebol feminino do Centro Olímpico.

O caso mais famoso é o de Natalia, 9, que mora em Florianópolis e treina no clube paulista uma semana por mês, trazida pela mãe, Karyna Pereira. A criança atua também na base do Avaí no elenco de meninos em que é a única menina.

“É cansativo, mas vale a pena. Todo mundo faz sacrifício para jogar bola. Minha família me incentiva totalmente porque, tirando minha irmã, os outros têm ligação com o futebol”, afirma Lorenza de Almeida Cavalcante, 12.

Nos dias em que vai ao Centro Olímpico, são 3 horas de viagem no total. Ela tem de sair de Jundiaí (60 km da capital) para ir a São Paulo. A mãe, Célia, está envolvida no esporte porque alguém tem de acompanhar Lorenza. Uma adolescente não pode fazer viagem intermunicipal desacompanhada. 

O irmão, Enzo, 16, está nas categorias de base do Metropolitano, equipe da sua cidade, mas deve ir para o Mirassol. O pai é Beto Cavalcante, treinador com passagens por equipes do interior do estado.

Icyla, Mariana, Carol e Lorenza vão fazer parte da equipe do Centro Olímpico na fase final da Ibercup em janeiro, em Porto Alegre, torneio internacional para categorias que vão do sub-7 ao sub-12.

“Neste ano tivemos equipes femininas pela 1ª vez, meninas de 12, 13 anos… Foi chocante ver a diferença de realidade de algumas delas e o esforço que fazem para conseguir praticar um esporte, o que deveria ter um acesso muito mais fácil”, afirma Marcio Lima, diretor da Ibercup no Brasil.

O final do treino é o momento de correria. Todas têm pressa para ir embora. Há um longo trajeto de ônibus, metrô, trem ou todas essas opções.

Icyla reclama enquanto aperta o passo para encontrar a avó postiça que a aguarda, já impaciente. As outras garotas pisaram em sua chuteira branca novinha para batizá-la. Uma brincadeira alternativa ao “auê!”.

“Veio da China! Demorou um tempão para chegar”, afirma, que planejava levá-la para uma excursão do Centro Olímpico à Espanha, mas a encomenda demorou para ser entregue.

Ela bate o pé no chão para tentar tirar um pouco da terra e corre para voltar ao Terminal Varginha.

Fonte Oficial: Folha de S.Paulo.

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